novembro 1, 2014

COMO A CIÊNCIA DIFERE DA FILOSOFIA

filosofiaciencia_j9lxyw

por Ernst Mayr

A fronteira entre ciência e filosofia é mais difícil de determinar do que aquela entre a ciência e a teologia, e isso levou a tensões entre cientistas e filósofos durante a maior parte do século XIX. A filosofia e a ciência eram uma atividade única no tempo dos antigos gregos. A separação das duas começou a ter lugar na Revolução Cientifica; mas, até Immanuel Kant, William Whewell e William Herschel, muitos dos que contribuíram para o avanço da ciência eram também filósofos. Autores posteriores, como Ernst Mach ou Hans Driesch, começaram como cientistas e depois passaram a se dedicar à filosofia.

Será que não existe uma fronteira entre ciência e filosofia? A busca e a descoberta de fatos é certamente assunto exclusivo da ciência; mas, em outras partes, há uma considerável sobreposição entre ambas. Teorizar, generalizar e estabelecer um arcabouço conceitual para seu campo é algo que os cientistas consideram parte de sua tarefa; com efeito, é isso que faz um verdadeiro cientista. No entanto, muitos filósofos da ciência sentem que teorizar e formar conceitos são atribuições da filosofia. Para o bem ou para o mal, nas últimas décadas a maior parte desse esforço tem sido abraçada pelos cientistas, e alguns conceitos básicos desenvolvidos pelos biólogos foram mais tarde absorvidos pelos filósofos e agora também são conceitos filosóficos.

Para substituir seu antigo foco principal, os filósofos da ciência se especializaram em elucidar os princípios pelos quais teorias e conceitos são formados. Eles procuram as regras que especificam operações que respondem a perguntas do tipo “O Que?”, “Como?” e “Porque?” com as quais os cientistas se deparam. O principal rama da filosofia relacionada com a ciência hoje é testar a “lógica da justificativa” e a metodologia da explicação. No seu pior, esse tipo de filosofia tende a descambar para confusões lógicas e sofismas semânticos. No seu melhor, ele forçou os cientistas a terem mais responsabilidade e a serem mais precisos.

Embora os filósofos da ciência em geral declarem que suas regras metodológicas são meramente descritivas – e não prescritivas -, muitos deles parecem considerar que sua tarefa é determinar o que os cientistas deveriam fazer. Os cientistas geralmente não prestam atenção a esses conselhos normativos e escolhem a abordagem, que (esperam eles) levará mais rapidamente a um resultado; essas abordagens podem diferir de um campo para outro.

Talvez a maior falha da filosofia da ciência, até apenas poucos anos atrás, tenha sido o fato de que ela tomou a física como o modelo ideal de ciência. O resultado foi que a assim chamada filosofia da ciência acabou sendo apenas uma filosofia das ciências físicas. Isso mudou sob a influência dos filósofos mais jovens, muitos dos quais especializados na filosofia da biologia. A intima conexão que existe hoje entre a filosofia e as ciências da vida é evidente, a julgar pela quantidade de artigos publicados no periódico Biology and Philosophy. Através do esforço desses jovens filósofos, os conceitos e métodos usados nas ciências biológicas tornaram-se agora componentes importantes da filosofia da ciência.

Trata-se aqui de um avanço extremamente desejável tanto para a filosofia quanto para a biologia. Generalizar suas visões da natureza de modo a contribuir com a filosofia da ciência deveria ser o objetivo de todo cientista. Enquanto a filosofia da ciência esteve restrita às leis e aos métodos da física, no entanto, não foi possível para os biólogos dar esse tipo de contribuição. Felizmente, esse não é mais o caso.

A incorporação da biologia modificou muitos dos pilares da filosofia da ciência. Como veremos nos capítulos 3 e 4, a rejeição ao determinismo estrito e ao apego as leis universais a aceitação de previsões meramente probabilísticas e de narrativas históricas, o reconhecimento do papel importante dos conceitos na formação de teorias, o reconhecimento do conceito de populações e do papel de indivíduos únicos e vários outros aspectos do pensamento biológico afetaram fundamentalmente a filosofia da ciência. Com o probabilismo dominando hoje em dia, todos os aspectos da analise logica baseados em presunções tipológicas ficaram muito vulneráveis. A certeza absoluta que tem sido o ideal dos filósofos da ciência após Descartes parece agora um objeto cada vez menos importante.

_________________________________________

Texto retirado do livro Isto é biologia – A ciência do mundo vivo – Ernst Mayr.

happy wheels game

Related Posts